O que são expectativas formais?
Você está numa sala de cinema. Resolveu assistir o último whodunit lançado. Você entra naquela sala escura, com expectativas de ser envolvido e surpreendido pelo filme. A tela, antes morta, começa a mostrar os pequenos sinais de vida: os créditos aparecem, seguido pelo título em letras cursivas. E à medida que a narrativa se desenvolve, você começa especular sobre quem é o culpado. Primeiro você pensa que é o Sr. A, mas logo em seguida o sr. A é morto e você fica surpreso, e sem delongas reajusta sua suposição e diz com toda certeza: é a sra. M. Mas ela também é morta, e você fica frustrado e surpreso. Mas por fim, acerta, era o sr. Z, todo mundo acha que é ele também, ATÉ os personagens. Mas não era o sr. Z, era a srta. B, e todo mundo fica estupefato.
Essa série de suposições são reajustadas de acordo com as novas pistas que são lhe fornecidas. Então, sua expectativa sobre o verdadeiro criminoso toma novos rumos, às vezes lhe surpreendendo ou frustrando ou o satisfazendo (quando é o caso de você acertá-las). A experiência por tanto é feita através de hipóteses, acontecimentos e reações: você cria hipóteses sobre um evento X, e descobre que um evento Y ocorreu ao invés, e então reage sobre esse acontecimento. Essa experiência é repetida diversas vezes, formando um padrão: você cria hipóteses sobre quem é o verdadeiro culpado, esse suspeito então é morto, você reage a morte dele e cria uma nova hipótese sobre quem de fato é o criminoso. Tal padrão pode ser interrompido (postergado), subvertido ou completado.
Digamos que você está andando e encontra uma pedra no meio do caminho (já sei que você tá cansado dessa história de pedra e caminho, mas não vá embora!), e ela tem uma cor esverdeada, você a ignora. E então continua andando, e encontra outra pedra no meio do caminho e é vermelha. E então uma verde. Agora outra vermelha. A próxima só pode ser uma verde, correto? Errado! É azul.
Verde Vermelho Verde Vermelho Azul
Houve uma quebra no padrão e sua hipótese de que seria uma pedra verde foi quebrada, frustrando e surpreendendo sua percepção. Esse padrão é criado através da forma, e as suas suposições são realizadas com base na repetição dos elementos. Se eu lhe pergunto qual será a próxima cor e você diz verde e se isso se concretizar você vai ser tomado por um sentimento de satisfação, você previu o que aconteceria. Agora se eu te digo que na verdade é azul, você se sente enganado e até mesmo surpreso, pois houve uma quebra no padrão e terá que reajustar o que você sabe sobre a padrão para levantar hipóteses sobre o que ocorrerá em seguida, no nosso exemplo: qual será a próxima cor. Agora se eu digo para você esperar pela resposta, você vai ficar ansioso, impaciente pela resposta.
A relação entre elementos cria a forma artística, mas ela também gera expectativas, chamadas expectativas formais. Padrões são construídos e expectativas criadas, podendo serem satisfeitas, postergadas ou subvertidas. Voltemos ao nosso exemplo inicial: quando você acha que o sr. A é o culpado, mas logo em seguida é morto, a forma nega a sua satisfação fazendo que você se adapte. Em seguida você acha que é o sr. Z e todo mundo acha e você então é recompensando por essa sensação, mas, então... espera, não era o sr. Z e sim a srta. B, e você se sente surpreendido: como não pensei nisso antes? Mas a forma também pode criar suspense, o assassino diz: o próximo morrerá às duas horas da tarde. E você fica pensando em que morrerá, levanta novas suspeitas, fica ansioso porque você não quer que o sr. D morra, ele é legal e você criou uma conexão com ele. A forma fílmica fez com que você sentisse satisfação, surpresa e até mesmo ansiedade, repetindo um padrão e realizando pequenas mudança nele, a forma fez que você reajustasse suas hipóteses sobre o que você achava que sabia.
Ainda, a forma pode fazer com que você levante suposições sobre o que aconteceu antes do que é retratado: "Você sabe o que aconteceu na última vez, não podemos fazer isso!" o sr. A diz, e então você começa levantar hipóteses sobre o que aconteceu: "Então ele já esteve em uma situação parecida, e ele não foi morto, então talvez ele seja o assassino!" . Essas hipóteses formadas sobre um acontecimento prévio do retratado é chamado curiosidade. A curiosidade pode estar presente no filme de diversas maneiras e ela faz com que você interaja, ainda mais, com o filme.
Portanto, através de um padrão a forma nos dá pistas para levantar hipóteses sobre o que acontecerá em seguida. Essas hipóteses geram uma expectativa e essa expectativa é saciada quando o filme nos fornece uma resposta. Logo, a forma faz com que nós participemos do filme, satisfazendo nossas expectativas, postergando essa satisfação ou sendo surpreendido.
Em Tubarão, Steven Spielberg utiliza a música como um recurso de substituição para o tubarão. Quando ouvimos a trilha sonora sentimos a presença do predador, e ficamos ansioso sobre o que irá acontecer. Na primeira cena do filme, dá para escutar levemente o tema do predador enquanto ele ataca a primeira vítima. Logo em seguida, o mesmo se repete e o tema musical fica mais nítido. Numa terceira vez, a trilha novamente se faz presente e logo pensamos: é o tubarão! Mas na verdade é um bando de garotos pregando uma pegadinha nos turistas. O diretor utilizou a forma para fazer com que nós, espectadores, criássemos expectativas e hipóteses, para em seguida recompensá-las ou refutá-las.