O que é forma fílmica?
O que diferencia um filme de outro? E o que os une? Tais perguntas, apesarem de simples, conseguem nos fornecer informações sobre o meio em si, e o que o torna único. Um filme pode ser diferente de outro em termos de gêneros, e esses gêneros diferenciam-se entre si por meio de convenções, que contribuem para nós, espectadores, em forma de expectativa. Quando se assiste um filme de vingança, o que se espera que aconteça? Que o protagonista alcance esse objetivo, então podemos dizer que em filmes de vingança espera-se o sucesso nessa jornada, isto é uma convenção e essa convenção molda nossas expectativas sobre a estória. Mas o que torna filmes diferentes tão semelhantes? Existem características comuns à todos, a mais evidente é a estruturação da estória.
Uma estória tem início, meio e fim, certo? Mas também temos personagens, e o que torna esses personagens críveis? Bom, eles tem desejos e fraquezas. Um personagem somente com desejo se torna unidimensional, pois não apresenta nenhum aspecto que faço com que nos empatizamos com ele. Um personagem que quer algo só por querer não nos atraí muito. Mas um personagem que quer alguma coisa, mas tem medo de obtê-la, ou das consequências de obter, torna-se um pouco mais interessante. Logo, toda estória tem um personagem, ou mais, que age como protagonista. Cada protagonista é motivado por um desejo, mas também por falhas e medos - as fraquezas. Por exemplo: o xerife de uma cidade quer matar o tubarão que atormenta as águas da bela praia local, mas ele tem medo do mar (Tubarão de Steven Spielberg).
Entretanto, não é somente a estória e as convenções, definidas pelo gênero, que fazem de um filme uma obra cinematográfica. O cinema é composto de muito mais elementos, como locação, figurino, música, efeitos especiais, etc. E esses elementos relacionam uns com os outros, sempre em prol de um objetivo em maior: construir uma harmonia entre essas relações. Essa relação entre elementos é sistêmico, ou seja, a inclusão ou a retirada de um afeta o todo. E o que é o todo? É o filme. Voltamos para Tubarão, no filme o diretor decidiu utilizar a trilha sonora como uma forma de substituir visualmente o tubarão, portanto temos uma relação entre a narrativa e a trilha sonora para gerar um significado para o espectador. Mas se eu tirar a trilha sonora? Vai afetar o que o espectador está vendo. Se em uma cena, o tubarão está de fato presente no meio dos turistas, mas não há trilha sonora, o espectador acreditará que estará vendo somente um plano das pernas dos turistas, e não o ponto de vista do tubarão. Mas isso não acontece no filme? Sim, de fato acontece, pois o diretor subverte a informação inicial entre o elemento narrativo e o sonoro, realizando uma disjunção entre os dois, para criar o efeito de surpresa. Mas isso só funciona porque inicialmente houve uma união entre esses elementos para que criasse uma expectativa que o tubarão só iria aparecer se a trilha sonora estivesse tocando; se a cena que define essa união não tivesse sido estabelecida afetaria a forma fílmica.
Então podemos dizer que a forma fílmica é o sistema geral percebido pela relação entre os elementos do filme todo. Ou seja, o filme possui um sistema geral que é percebido, notado, a partir da relação entre os elementos, a música e o tubarão, por exemplo. Sendo um sistema, um elemento afeta o outro. Se o seu coração parar, afetará os outros órgãos do seu corpo. O coração é um elemento de um sistema, que é o corpo. Um corpo não é só um coração, é também os outros órgãos necessários para que haja vida. E esses órgãos não são espalhados ou postos de forma aleatória, eles são organizados. Assim como nosso corpo, o filme tem uma forma e essa forma é percebida através da organização dos elementos. A relação entre esses elementos é percebidos pelo espectador através de pistas, por exemplo, toda vez que toca a música tema do tubarão, o predador estará lá. Essa percepção entre os elementos moldam nossas expectativas, fazendo com que demos uma unidade ao filme a partir da relação entre essas partes. O que acontece quando a música não toca? O tubarão não está presente. Mas e se, a música não tocar e o tubarão estiver? Surpresa!
Portanto, um filme é diferente um dos outro por conta de sua forma - a relação entre os seus elementos - e semelhantes uns aos outros pois utilizam os mesmos elementos. A maneira como o cineasta trabalha com cada elemento, relacionando um com outro, cria a forma fílmica. Essa forma fílmica nos dá pistas sobre a obra e essas pistas fazem com que nós desenvolvemos expectativas sobre o que irá acontecer, mas também nos fornece a percepção da relação entre os elementos que formam o filme. Um filme, ainda, pode tratar do mesmo tema, mas a forma fílmica será diferente. Assim como uma música, ou uma peça, pode provocar sensações diferentes se realizadas por diferentes pessoas, um filme também o faz.